Projeto
do Governo coloca Sesc e outros serviços à beira do precipício
Por Fernando de Santis com fotos
de divulgação/Sesc
Danilo Santos de Miranda empresta,
há aproximadamente 24 anos, sua forma de pensar e administrar
ao Serviço Social do Comércio (Sesc) São Paulo. Fosse em
outro País, a entidade, que é sinônimo de excelência nos
campos de cultura e esporte, seria intocável. Danilo, um
dos que fez que o Sesc SP chegasse ao padrão onde está hoje,
seria ídolo nacional.
Mas o Brasil – ou o Governo brasileiro, mais especificamente
- é diferente. Não vê a cultura e o esporte como prioridades.
A ponto de colocar em discussão um projeto (o da criação
do Fundo Nacional de Formação Técnica e Profissional – Funtep)
que pretende retirar 33% da verba destinada aos serviços
sociais, culturais e esportivos mantidos pela indústria
(Sesi), pelo comércio (Sesc) e por outros segmentos para
repassar ao ensino profissionalizante.
Em meio a este temporal, o “professor Danilo” como é conhecido
pelos colegas de trabalho, pega sua pastinha e sai em defesa
do Sesc, circulando abaixo-assinados, artigos e o que mais
for necessário para tentar fazer com que os políticos mudem
de idéia e admitam que, nas suas palavras se o projeto for
transformado em lei, “resultará na diminuição de toda a
programação e na suspensão dos investimentos para expansão
dos centros culturais e desportivos, entre outras perdas”.
Danilo respondeu questões muito semelhantes às feitas na
semana passada para o diretor do Senac, Luiz Salgado. Ambos
têm a mesma opinião: o Governo não sabe no que está mexendo.
Se soubesse, imitaria o Senac e o Sesc ao invés de tentar
esvaziá-los.
Professor Danilo, circula no Governo Federal um
projeto de alteração da forma de arrecadação das entidades
do Sistema S. Assim, no caso das entidades ligadas ao comércio,
o Sesc cederia parte da receita que hoje recebe para financiar
cursos profissionalizantes ligados ao Senac. Como o Sesc
vê esta mudança?
Danilo de Miranda: Com
preocupação e apreensão. O Projeto de Lei do Governo Federal
propõe uma redução de 33% dos recursos do Sesc. Essa redução
resultará na diminuição de toda a programação e na suspensão
dos investimentos para expansão dos centros culturais e
desportivos, entre outras perdas.
Como o Sesc, como fará para manter seus projetos
se for obrigado a abdicar de parte da receita?
Danilo: O
Sesc terá de reduzir drasticamente a sua programação, a
ampliação de sua rede, o número de pessoas atendidas, atendimentos
que são realizados de forma gratuita ou a preços acessíveis,
subsidiados. Sem dúvida, o projeto de educação do Governo,
visa subtrair o número de pessoas com acesso à educação
permanente oferecida pelo Sesc, a partir de seu conteúdo
programático e das relações humanas inter-gerações, inter-classes
sociais, inter-ideologias, que se estabelecem nas unidades
e nos programas da instituição.
Junto com o projeto que cria
o Fundep, insere-se a organização tripartite no conselho
gestor do Sistema S. Entra a figura dos representantes dos
trabalhadores na gestão. Como vocês recebem a idéia? Isso
pode ser considerado uma intervenção do Governo?
Danilo: Os
representantes dos trabalhadores e do governo sempre fizeram
parte dos Conselhos das entidades. No exercício dessa representação
emprestam significativa contribuição para o crescimento
e desenvolvimento das instituições. O modelo de gestão apresentado
pelo projeto, no entanto, é intervencionista e estatizante,
uma vez que propõe a transferência da gestão do empresariado
para o Estado, no caso do Senac e destina a distribuição
dos recursos da maneira que lhe convém, no caso do Sesc.
Quantos utilizaram seus serviços
no ano passado?
Danilo: Em
2007, no Estado de São Paulo 14.523.919 pessoas de todas
as idades, turmas, famílias, solitários; de todas as raças,
gêneros e classes sociais, participaram de cursos de iniciação
esportiva, de aulas de expressão corporal, oficinas de criatividade,
de debates nos seminários sobre temas diversificados, de
inúmeros shows de todos os estilos musicais, peças de teatro,
filmes nacionais e estrangeiros, além de conviverem na mais
absoluta paz e respeito nas áreas de convivência das 31
unidades distribuídas pelo Estado.
Imagine dois cenários para 2009. Um considerando
que o Funtep foi aprovado e outro que não foi aprovado.
Como eles seriam?
Danilo: Um
país que não investe na formação de seus jovens para a cidadania,
que prioriza a formação meramente técnica, voltada exclusivamente
para o mercado de trabalho está aquém de seu tempo. Na sociedade
da informação, ou no tempo em que vivemos um profissional
preparado para o mercado deve ter garantida a sua formação
integral e um repertório que transcende a habilidade técnica.
Não acreditamos num projeto de Educação Técnica que não
considere a ação do Sesc cuja natureza é beneficamente eficaz,
engajadamente eficiente e profundamente educativa, sem a
qual não há profissional que obtenha a sua formação completa.
Considerando que o projeto seja engavetado, como
é possível crescer, atingir uma fatia maior do segmento
a que suas entidades se dedicam hoje?
Danilo: A
preservação da natureza privada dessas instituições é a
melhor maneira para aumentar o acesso á sua oferta. Na medida
em que os setores mantenedores crescem, a expansão física
e de atendimento dessas entidades crescem igualmente.
Que tipo de modificações poderiam fazer do Funtep
um projeto mais eficiente?
Danilo:
Não há como propor modificações
para um modelo com o qual não concordamos. Cremos que o
modelo de gestão que nossas instituições adotam desde a
sua criação – gestão privada com controles públicos - tem
apresentado a necessária eficiência para a consecução dos
objetivos propostos.
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